DINAH RIBEIRO AMORIM

Professora aposentada, associada do ICAL, dedica-se aos textos na Oficina de criação, e informes turísticos culturais de nossa cidade que são publicados na Revista Eixo Cultural criada pelo ICAL.

É também criadora e editora da Revista Cultural do Ceconi. Dinah Ribeiro Amorim faz aulas de web, e aprendeu a desenvolver o informativo Virtual do Ceconi, além da revista impressa. Por essas razões representa a nova mulher em sua melhor idade.
20/02/2013
UM TIPO INESQUECÍVEL!

Manhã chuvosa, quadra de tênis molhada, “bode” de domingo.

Resolvo sair e passo em frente a uma casa velha, abandonada, conhecida como “Castelinho”, na Av. São João esquina com a Rua Apa.

Embora com chuva, algumas pessoas trabalham. Que estarão pretendendo?

Já havia escutado de uma amiga, quando comentei que estava à busca de uma boa história, por que não procurava o Clube de Mães do Brasil, chefiado por Maria Eulina Reis Silva Hilsenbeck, que recolhia desabrigados da rua e os orientava para a construção de albergues, aproveitando casas tombadas pelo estado. Uma delas era o Castelinho.

Paro o carro, resolvo entrar, pergunto por Maria Eulina, que logo me atende com uma delicadeza e bondade no olhar, comovendo-me à primeira vista.

As respostas às minhas perguntas soam de uma forma automática, como se eu fosse mais uma curiosa ou interessada no momento, de qualquer forma, útil.

Aos poucos, tudo o que já repetira muitas vezes vai se transformando, seu rosto se colore, empolga-se, com estranho brilho no olhar à medida que narra seu projeto inicial, sua demora em conseguir colocá-lo em prática, suas primeiras atividades já começadas e o que pretende para o futuro: Oficinas profissionalizantes em casas antigas, restauradas pelo dinheiro arrecadado pelo Clube de Mães do Brasil. Dedicam-se aos mendigos de rua através de bazares, festas de bairro, quermesses, doações voluntárias e, o mais importante, trabalhos feitos pelos próprios habitantes da rua que, desempregados, possuem condições de trabalho e vontade de sair da situação em que se encontram, bastando apenas, para isso, um empurrãozinho, um apoio, um estímulo de uma mão amiga.

Encontraram em Maria Eulina essa ajuda. Uma mulher simples, conhecedora de seus problemas, pois já passou pela mesma situação há muitos anos, conseguiu sair dela mas, não os esqueceu, resolvendo ajudar moradores de rua, logo que pôde. Enquanto me atendia, mostrando-me o que já haviam feito, alguns homens, moços ainda, faziam suas tarefas, cabisbaixos, dirigidos por ela, que não os perdia de vista.

De repente, interrompendo nossa conversa, pediu licença e foi conversar com um homem, de apelido Careca, que ia saindo todo limpo e perfumado, dando pinta que não voltaria tão cedo.

Já estava um pouco ‘tocado”. Deveria ter tomado algumas...

Ao ser interrogado aonde ia, avisou que logo voltaria, só sairia um instante.

Maria Eulina, esquecida de qualquer outra coisa, inclusive de mim, dedicou-se totalmente a falar com ele.

Sua maneira de conversar, seus gestos afetuosos, pareciam os de uma mãe dirigindo-se a um filho.

Explicou-lhe que possuía normas, que se ele saísse, não poderia retornar pois, provavelmente, voltaria embriagado e em busca de pouso, o que contrariaria as regras estabelecidas.

Todos que lá permaneciam, assumiam um compromisso; deixar a rua em troca de trabalho, comida, atenção e, principalmente, deixar o vício. Queria uma construção sólida e, para isso, necessitava de pessoas firmes e sóbrias.

Sabia que era difícil deixar vícios e costumes de tanto tempo, passavam por duras provas e teriam seu apoio, mas era necessário ser rígida para atingir a meta que pretendia, com eles mesmos.

Se ele saísse, não poderia voltar mais para dormir. Talvez, ela lhe desse alguma chance novamente, em outro dia, quando houvesse mais lugar.

Enquanto falava, o tal do Careca foi murchando, encheu seus olhos de lágrimas, afirmou que não sairia mais, beijou-a no rosto, olhou para mim também, veio me beijar e disse:

- Sabe, eu gosto muito dela!

Fiquei meio sem jeito, desacostumada a ser beijada por estranhos, emocionei-me também, tive vontade de sair. Já vira o suficiente.

Com um modo de falar diferente, um olhar bondoso, cheio de amor, enfim, Maria Eulina havia conseguido tirar, em apenas três meses, uns quarenta “desabrigados” das ruas, do desemprego, dos vícios, da falta de afeto, coisa que muita instituição leva tempo para ter êxito e nem sempre consegue.

Lembrou-se de mim, desculpou-se pela interrupção, mas o trabalho era mais importante.

Peguei, naquele momento, tudo o que precisava para escrever alguma coisa. Despedi-me às pressas, comprometendo-me a fazer divulgação, sem saber direito como... Pensaria mais tarde.

No momento, estava tão emocionada quanto o tal Careca, e só conseguia pensar: ela toca fundo no coração da gente...

Como consegue isso, não sei...

Talvez seja vivência, experiência e muita luz interior.

Conheci, num dia sem graça, meu tipo inesquecível, lembrando artigo de “Seleções”, dos tempos antigos; um exemplo de coragem, uma chamada da vida para quem considera seus dias tristes ou monótonos, havendo tanta coisa urgente a fazer e necessitando pessoas disponíveis.

Prometi divulgação e é o que ando fazendo... Não a encontrei mais. Sei que já apareceu até no “Jô Soares”. Que bom!

Não a esqueci nem perco a oportunidade de falar sobre seu trabalho. Espero que ele cresça sempre, tirando também as mulheres e as crianças das ruas e dos vícios, transformando castelos abandonados às bruxas em jardins encantados para futuros leitores, escritores, trabalhadores, enfim, prováveis vencedores, nessa luta constante que travamos todos os dias dentro de nós mesmos, com os outros lá fora, com a sociedade em geral, numa eterna tentativa de adequação e ajustamento.

FIM!

São Paulo, 15/09/1997

E. T.: Voltei ao Castelinho após aposentadoria, dando aulas de arte para crianças, contando histórias, formando uma biblioteca com auxílio da comunidade; fiz cursos de vários tipos de reciclagem, no parque da Água Branca, mantidos pelo governo estadual, sob orientação de Maria Eulina, ficando lá mais ou menos um ano, dedicando-me como voluntária e tendo oportunidade de conhecê-la melhor, observar o esforço e as dificuldades encontradas no trabalho ao qual se propôs e os sucessos também que obteve. Auxiliou muita gente, dedicou uma vida inteira ao bem estar do próximo, embora nem sempre tivesse o agradecimento e a solidariedade que merecia. Guardo boas recordações desse tempo em que me dediquei ao Castelinho e continuo desejando que Maria Eulina e seus auxiliares atuais alcancem êxito e prosperidade no trabalho que se propuseram. Ainda tenho a lembrança de que encontrei nela meu tipo inesquecível.

(São Paulo, 20/02/2013)


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